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Como nasceu a Yiayiá, por Camilla Yamin

Atualizado: 19 de jul.


Embora desde a dolescência eu já adorasse cuidar de bebês e brincar com crianças menores, a consciência sobre meu interesse pela primeira infância veio a partir da observação de adultos.


Em meu primeiro estágio, em uma multinacional americana, me surpreendi ao perceber que tudo que chegava ao consumidor final (preços, matéria prima, embalagens, serviços, etc.) era definido por pessoas, que todas as decisões que atingiam os funcionários e a cadeia produtiva eram tomadas por outros funcionário em cargos de maior poder. Pode parecer ignorância ou inocência, mas foi uma grande caída de ficha a respeito do mundo.

Decisões que afetam pessoas, estados, países, animais, plantações, mares e rios, boas ou ruins, são tomadas por seres humanos. Essa é a diferença da nossa espécie homo sapiens para as outras espécies de animais, a consciência de tomar decisões. Por isso, penso que o nosso próximo passo no caminho evolutivo seja aprender a escolher, com consciência e a partir da nossa mais verdadeira e profunda vontade.


Na então empresa em que estagiei, por ter sido contratada pelo departamento financeiro que gerenciava a América Latina, tive a oportunidade de acompanhar reuniões cujas resoluções tinham efeito a nível regional. Nessas reuniões passei a observar os diretores, tentando tirar a camada da representação do cargo que ocupavam, até chegar em seu interior mais humano. Foi nesse momento que cheguei às crianças. A capacidade analítica, a lapidação da escuta, o nível de risco que era assumido, a neutralidade, a reatividade, a criatividade para encontrar soluções, a capacidade de sentir empatia, compaixão, tudo vinha da base, da construção da personalidade, dos valores, do ego, das crenças, mecanismos internos e caminhos neuronais que foram desenvolvidos nos primeiros septênios de vida.


Quando entrei na faculdade de pedagogia, logo percebi que muito pouco do que seria necessário para me tornar uma boa educadora viria dali. Como meu nível de inglês era bom, rapidamente consegui trabalho em uma escola bilingue de elite. Fui auxiliar em uma sala com 16 crianças de 2 à 3 anos e, quando me dei conta, eu estava influenciando diretamente a formação daquela mesma base que eu observava nos membros das reuniões.

Nos anos que se seguiram tive diversas experiências que demonstraram grandes falhas no nosso sistema de educação para a primeira infância. É importante destacar aqui que não se trata de falhas do governo, de verbas reduzidas, fome, falta de material ou falta de mão de obra. Por um tempo trabalhei em escolas privadas de alto padrão onde imperava a abundância de recursos. As falhas a que me refiro estão diretamente ligadas à falta de consciência dos adultos, à forma de atuação com as crianças, aos detalhes do dia a dia, às palavras usadas para se comunicar, às respostas dadas para a perguntas, à rotina acelerada e sem sentido.


Não quero dizer aqui que os profissionais que observei nas escolas eram despreparados. Pelo contrário, professores em geral trabalham muito, ganham mal, os cursos na área de educação são caros e mesmo assim a maioria segue se profissionalizando. No entanto, não há formação acadêmica que nos faça perceber nossa necessidade de aprovação, medo de errar, carência, autoritarismo, baixa autoestima, arrogância, insegurança etc. São desses traços de personalidade, dessas estruturas e crenças profundas que estou falando. Afinal, assim como os diretores, a equipe pedagógica também age de acordo com a estrutura interna que foi formada em seus primeiros anos de vida.

Na primeira infância, além de termos um campo energético sensível e aberto, nosso cérebro contém milhares de neurônios espelho que absorvem o mundo à nossa volta. Além disso, por depender do adulto, há também um mecanismo interno de sobrevivência que aciona uma necessidade na criança de se sentir aceita.


Agora vamos imaginar uma cena: uma sala de aula linda, crianças de 2 ou 3 anos colocadas perfeitamente em roda para a contação de uma história. Uma delas vê uma formiga andando pela janela e silenciosamente se afasta para observar. A professora a chama para sentar-se novamente, mas a criança está tão encantada com a formiga que nem escuta. Novamente ela é chamada e dessa vez escuta, olha para a roda, mas decide não sair de onde está. Então duas coisas acontecem, primeiro a educadora fala em tom sarcástico “poxa, que pena né pessoal, fulano não está participando”; em seguida uma auxiliar se aproxima da criança, a pega no colo, a coloca de volta na roda e diz “agora é a hora da roda”. O que você vê?

Eu vejo uma necessidade de controle por parte do adulto, ou talvez um medo de alguém passar e ver uma criança desinteressada, poderia até ser um desconforto por sentir que a história não foi interessante. Na verdade, o motivo em si não importa, o que importa é que o desenrolar da cena não tinha nenhuma relação com o que verdadeiramente era benéfico para o processo de desenvolvimento daquela criança e sim com questões internas e profundas do adulto. Vejo também uma grande chance daquela criança se sentir errada ou rejeitada e o risco de ela deixar de seguir seu instinto de aprendizagem e sua curiosidade para se sentir aceita e amada.

Cenas como essa, aparentemente banais, são comuns no dia a dia de escolas e os educadores não fazem por mal. São reações inconscientes, às vezes culturais da escola ou até algo que o educador vivenciou na infância. O educador precisa dar conta de seguir o planejamento, preparar apresentações, fazer relatórios, preencher agendas, trocar fraldas, organizar mochilas. É praticamente impossível se manter em estado de presença e plena atenção com tantas coisas para fazer. Foi a partir dessas percepções que senti que algo muito enraizado no nosso sistema não fazia sentido.

Parti então na busca por alguém que estivesse fazendo algo diferente. Alguém que não estivesse preocupado em desenvolver o raciocínio lógico (trabalho feito com maestria pela própria criança em seu livre brincar), mas em educar adultos que soubessem fazer escolhas; verdadeiramente livres e responsáveis por suas vidas. Foi nessa busca que encontrei Ivana Jauregui, que conheci o movimento Educação Viva e Consciente e que decidi criar a Casa de Yiayiá.


Embora tenha trocado a carreira empresarial pela pedagógica, sou muita grata pelos anos em que pude observar adultos brincando. Hoje, quando os pais me questionam se os filhos estarão preparados para entrar nas melhores escolas, passar nas melhores universidades e assumirem cargos importantes, me sinto segura para garantir que eles terão a base necessária para serem o que quiserem ser.


Mas aí vem a grande dúvida, estamos preparados para deixarmos nossos filhos serem o que quiserem ser?




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